26/11/2004 00:25
Aos Deuses
Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.
Ricardo Reis
enviada por João Rosa
02/08/2004 15:40
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
Sentimento do Mundo
enviada por João Rosa
05/07/2004 17:50
AULA DE INGLÊS
- Muito bem. Very Good, Chico. Sua pronuncia tá boa, mesmo. Agora, vamos ver esse texto na realidade. No seu caso. A que horas começa o seu dia?
- Às 9.
- Fala a frase toda, né, Chico!
- Ah é mesmo: Meu começa dia às 9.
- Meu dia começa às 9, certo? Fala de novo.
- Meu dia começa às 9.
- Então você acorda às 9.
- Isso, você acorda às 9.
- Eu? Ou você?
- Ah é. Eu acordo às 9.
- E o que você faz depois que acorda?
- Tomo café-da-manhã.
- Isso! Very well! E o que você come e bebe no café da manhã?
- Pão com margarina...
- Fala a frase do começo, Chico Sá!
- Ah é, meu, esqueço. Eu como pão com margarina e bebo café com leite.
- Thats it! E a sua mãe? A que horas começa o dia dela?
- O teu dia começa às 9, também.
- O meu? O meu não! O meu começa às seis!
- Puts, mano, o teu não. O dia dela começa às 9.
- Good! E ai? E depois?
- Depois ela vai lavar louça.
- O quê?! Ela acorda e vai direto lavar louça?
- Não. Não. Pulei. Ela toma café-da-manhã também.
- E o que ela come no café-da-manhã?
- Ela só bebe café e come pão com margarina. Não bebe leite de manhã.
- Great, Chico! Agora, baseado nesse texto que tem um cara falando de uma amiga, vou te fazer perguntas sobre uma amiga sua, qualquer amiga, certo?
- Qual o nome dela?
- É...Vou inventar, tá...
- Não! Inventar não vale. Fala uma amiga de verdade, pode ficar tranqüilo que não vou contar nada sobre ela pra ninguém.
- Letícia, vai!
- Ela é bonita?
- É.
- Frase toda, Chico!
- Sim. Ela é bonita.
- O que que ela gosta de fazer?
- De conversar, não! ela gosta de conversar.
- Good. Sobre o que ela gosta de conversar?
- Ela gosta de conversar tudo. Como se fala sobre, teacher?
- Nesse caso about. Ela gosta de conversar about tudo.
- De que tipo de música ela gosta?
- De...Ela gosta de MPB.
- Bom, pra terminar, você vai me fazer perguntas sobre uma amiga minha, pode perguntar o que quiser.
- Beleza! Qual o nome dela?
- Larissa!
- Ah! Agora te peguei, professor, fala a frase completa também, né!
- Justo: o nome dela é Larissa.
- Como se pergunta o trabalho dela?
- Whats her job!
- Então, qual o trabalho dela?
- Ela corrige provas na escola. É estagiária.
- Beleza! Como eu pergunto se vocês já saíram juntos?
- Assim você não pode perguntar porque tá no passado.
- Então, no presente: Vocês saem juntos?
- Não! Por enquanto estamos só flertando. Paquera.
- Como eu pergunto se você já deu uns pega nela?
- Isso em inglês é complicado, Chico, alguma coisa como...não...isso também tá no passado, não vale!
- Tá bom, vou perguntar outra coisa: Ela é gostosa?
- Isso você não ia perguntar pra um amigo inglês ou americano ou australiano porque não ia adiantar de nada, ia ficar boiando, eles não comem as mulheres, então não sabem o sabor delas. Só nós brasileiros comemos as mulheres, e por isso sempre queremos saber se elas são gostosas, pode fazer outra pergunta...de preferência que se possa exportar.
João Rosa de Castro
enviada por João Rosa
28/06/2004 16:44
Olá João,
Passei pra dar uma olhadinha, cada vez melhor, parabéns.
beijos
Fabi
Se....
Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...
Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...
Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...
Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos...
Então, á ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...
(RUDYARD KIPLING)
espero que goste.
Enviada por Fabiana Michele de Lima.
enviada por João Rosa
08/06/2004 14:52
MÁQUINA BREVE
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
Cecília Meireles
enviada por João Rosa
02/06/2004 17:43
CAFÉS DE OUTONO
Naquele café da Libero Badaró, balcões rodeados de pessoas tomando café na tarde de outono, fiquei por um instante sem saber de onde pedir à garçonete o expresso puro. Vagou um lugar à esquerda de dois quarentões que conversavam afoitos no balcão, comendo pão de queijo e bebendo água e café. Encostei-me ao balcão e pedi:
- Um expresso, por favor, puro.
A máquina já sabia a habilidade da senhorita e foi logo ferindo o pó com a água quente. Um dos quarentões rindo, puxou conversa:
- Friozinho, né?
- Pois é. Respondi. Bom pra dormir, difícil pra acordar.
- Cobertorzinho de orelha é bom no frio. Cê sabe que no inverno eu durmo com a minha mulher, mas no verão, vou pro outro quarto. É muito calor pra dormir junto.
O outro, num gesto de reprovação, falou:
- Que isso, Eduardo! Eu durmo com a minha mulher sempre...
- Já ouvi dizer que no verão a gente tem disposição pra boas coisas na cama. arrisquei compactuando com o que reprovava, como quem desse vazão à indiscrição do desconhecido Eduardo, cuja vida conjugal expunha a mim e ao colega. E ele justificou:
- No verão não dá. Fico irritado. Muito calor. Suor danado.
- Sua mulher não liga? especulou o colega.
- Já se acostumou, nem liga.
Então, recomendei: Nada que um ar-condicionado não resolva. e fiz silêncio.
Eduardo fez um gesto de aceitação opaca diante da minha sugestão repentina. Daí risinhos e zombarias adultescentes seguiram entre ambos, que se afastaram em direção ao caixa com até-logo. Eu saboreava o café, na minha. Depois de pedir ao anônimo, que sempre dormia com a mulher, para pagar a conta, o misógino de verão, virou-se para mim e disse:
- Eu sempre falo pra ela (à caixa, que ria e recebia a conta) que ele é o meu caso, mas ela nunca acredita.
enviada por João Rosa
28/05/2004 13:34
BECOS DE GOIÁS
Cora Coralina
Beco da minha terra...
Amo tua paisagem triste, ausente e suja.
Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.
Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio.
E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,
e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,
calçando de ouro a sandália velha,
jogada no teu monturo.
(...)
Conto a estória dos becos,
dos becos da minha terra,
suspeitos...mal afamados
onde a família de conceito não passava.
Lugar de gentinha diziam, virando a cara.
De gente do pote dágua.
De gente de pé no chão.
Becos de mulher perdida.
Becos de mulher da vida.
Renegadas, confinadas
na sombra triste do beco.
Quarto de porta e janela.
Prostituta, anemiada,
solitária, hética, engalicada,
tossindo, escarrando sangue
na umidade suja do beco.
(...)
Cora Coralina
Do Livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais
enviada por João Rosa
24/05/2004 16:25
DIVÓRCIO FUTURISTA
O cobrador da lotação anunciava mecânico Vai metrô Artur Alvim, Águia de Haia, sentado. Subimos eu e ela. Bonita, magra, grave. Sentei-me num banco e ela no banco atrás de mim. O rádio tocava um desses pagodinhos trovadorescos, inflamados e perenes, orgulho dos motoristas de lotação. Passavam além das calçadas com paredes pichadas casas de material de construção, lanchonetes, igrejas, casas de material de construção, auto-elétricos, concessionárias, casas de material de construção, lanchonetes, igrejas. Atrás de mim, ela, exasperada já vociferava:
- Agora, Caio? Você acha que faz sentido? Depois de todas as mancadas que você deu comigo? Eu tava na minha casa, numa boa com a minha mãe. Tinha os meus problemas e meus arranca-rabo com ela, mas no entanto tava lá. Você não tinha nada que ter aceitado eu na sua casa pra depois fazer o que você fez....Ah...Agora? Agora eu vou ter que resolver minha situação tudo de novo com ela...Não!! Vou ter que te engolir até resolver tudo...O quê!?? Me diz quando eu deixei de ser sincera com você!? Você sai pra bebedeira com os amigos e pensa que eu tenho que ficar uma isaura sua em casa, te esperando até sete horas da manhã, e ainda vem falar que a culpa é minha! Dá licença, meu...Mas Caio, eu não tenho nada a ver com a sua briga com a sua mãe! Se eu soubesse que você era maria-vai-com-as-outras eu nunca tinha ido morar com você pra agora tá passando por essa situação...Dá licença, vai...Então fica com o seu Corinthians. Eu fui uma trouxa em ter acreditado em você...
A lotação já entrara na Águia de Haia, vinha futuro o Terminal A.E. Carvalho com todos os seus jardins esquecidos, regados pela chuva de abril, e ela, a abandonada, irada e eloqüente futura ex-mulher de Caio não desistia de tentar convencê-lo de que ele estava totalmente errado:
...Que que ela tem a ver com as minhas roupa apertada? Me diz!! Que que ela tem a ver se eu vivo fazendo compra? Me diz!! Ela paga as minhas conta?! Ela paga as minhas conta?! Nem você tava pagando direito as conta da casa! Até as conta dos móveis eu que tava pagando! E vem se meter na minha vida! Isso não é desculpa, Caio. Se fosse o Corinthians que tivesse agüentado as suas barra pesada você podia falar!... Então fica com o Corinthians... Que se dane! Já tô na merda mesmo, isso não vai fazer a menor diferença. Vou deixar minhas coisa lá só até resolver com a minha mãe pra voltar pra casa dela, mas depois pode me esquecer que não faço questão de nada. Agora vou desligar porque já tô chegando no metrô... Isso a gente vê depois, isso a gente vê depois, agora não dá, tchau.
Entretanto, como o metrô ainda viesse longe, por algum motivo recôndito, talvez por conta uma impaciência súbita de mulher, ela desistiu de convencer em tempo o seu amado Corinthiano obstinado; afinal, sempre resta uma esperança. O pagode ainda insistia nas declarações de amor.
23/05/2004
enviada por João Rosa
21/05/2004 16:54
O TEAR DA ALMA
Pondere se poderia haver momento mais belo do que este: eu aqui, sentado num trono diante do velho companheiro metálico computador, num espaço que no passado teria sido o meu quarto de dormir, de onde posso ouvir o CD de Oswaldo Montenegro, cantando ao vivo Lamentos (de Pixinguinha e Vinícius de Morais), que depois se torna Trocando em Miúdos, por sua vez, avançando e se transformando em Samba do Grande Amor, ambas as últimas composições de Chico Buarque a primeira delas em parceria com Francis Hime. Sinto-me um grande medíocre colocando essa faixa (a 12 do CD 1 dos trinta sucessos de Oswaldo coleção Sem Limite) em repeat. Parece um ultraje ao requinte que requinte não se repete. Mas, enfim, não me contento em ouvir uma só vez o State of The Art, sobretudo Trocando em Miudos, que me transporta para a cena dramática de despedida de Mônica Galdino, ex-noiva do tecelão da alma, que vos tece. De quando em quando, vem a amada Zezé (minha mãe), descrevendo, com detalhes dignos da melhor literatura, a festa de aniversário de Nossa Senhora de Fátima: a coroação da virgem, as comidas quermessianas prenunciando São João, o vigor do povo, o coro na igreja, os fogos no céu etc. Percebe o cenário? Estou melancolicamente feliz. Isto sim é que é circunstância a se deitar ao eterno retorno, e não o contrário, que seria estar felizmente melancólico.
Entretanto, essa descrição inflamada não é exatamente o que me trouxe ao tear da alma. O tear da alma é soberano e atroz, um positivista de Comte: é preciso provar ser digno dele, caso contrário o que seria tecido se torna trapo. Modéstia à parte, neste nobre momento, ao escrever, sinto-me o bicho-da-seda. Mal-vestida a alma que não puder trajar do pano que venho tecer. Vim para falar das descobertas magníficas de Flávio Gikovate, psicanalista que fala no Paradigma do Século XXI, da TV Cultura. Apesar da disparidade nas sentimentalidades do momento, isto é, entre o que quero dizer e as narrações tão católicas de Zezé, a música que juntos ouvimos, a lembrança dum amor do passado, Zezé, Oswaldo e Mônica hão de me perdoar no dia do Juízo Final, se é que ele virá.
Todo homem corajoso, simpático, discernido e auto-suficiente que ouço ou leio põe-me em contato com José Glicério (meu senhor e falecido pai), para quem tudo era necessário e nada era suficiente. Flávio Gikovate, a meu ver, pode bem ostentar todas essas quatro virtudes do homem do futuro, e por isso faço aqui, de memória, uma simples paráfrase de seu discurso tão eloqüente na televisão:
Eis que o melhor alento das novas gerações é o ficar entre os jovens. Na nossa adolescência, a aproximação dos jovens sedentos de amores era tão tumultuada e difícil de se concretizar que acabou gerando muito sofrimento, formando relacionamentos fracassados, uma cultura cada vez mais machista, mulheres cada vez mais insatisfeitas, homens cada vez mais inseguros. Nós não podíamos beijar nem ser beijados por diversas razões: vergonha, proibição, separação de gêneros, resultante da guerra dos sexos, ou vice-versa, desconhecimento do outro, complexos, homossexualidade latente ou não. Os meninos mais delicados eram chamados de bichas, o que fazia com que se afastassem mais ainda das meninas ao verem os mais machões saindo na vantagem entre elas por conta da agressividade. A agressividade, essa bomba sexual dos tempos, explodiu nos rapazes, como instrumento propulsor do tesão, resultado do desejo visual, segundo nossa opinião, atributo exclusivo dos varões. As moças, por não desejarem visualmente, mostravam-se indiferentes em relação a eles. Eles, desejando e não se vendo desejados, sentiam-se frustrados e inferiores. Donde ter sido importante o advento do simples ficar. Esse contorno da situação tornou os jovens mais amistosos em relação ao sexo oposto, diminuindo muito o conflito entre os gêneros. No entanto, as mulheres, ao perceberem a fraqueza nos rapazes, passaram a usar a indiferença, relacionada à ausência de desejo visual, como uma fonte de pirraça ou humilhação e principiaram expondo mais os seus corpos e com isso entre outras causas subiram ao poder.
Triste foi a hora em que os machões (homens e mulheres) descobriram que o sexo e a agressividade são irmãos. Afinal, se entre uma briga e outra, os orgasmos eram mais intensos, o ideal era ter sempre na manga uma carta, ou seja, uma coisinha suja para irritar o outro e depois cair na cama e só sair verdadeiramente saciados. A artimanha tornou-se um vício e de vício foi promovida à virtude. Daí se o menino dissesse ao pai que queria fazer um curso de pintura, o pai o punha nas aulas de judô.
Porém, ergueu-se aos casais um grande problema: precisavam amar e transar, e se o sexo faz comércio com a agressividade, sexo e amor são fenômenos distintos. O que move o amor é o encantamento, que surge das semelhanças dos amantes. Os amantes estavam amando errado, pois para o sexo, suscitavam as diferenças entre eles, as quais irritavam, causando o famigerado tesão. Pobres amantes. Como amar e transar simultaneamente se para cada uma dessas manifestações de vida o que move são impulsos opostos? Eis a questão. Uma incógnita.
A dúvida também gera padrões. Dessa incógnita surgiram os modelos fechados de casais que se dividiam numa dupla muito conhecida: O(A) egoísta e O(A) generoso(a). O generoso mais dá do que recebe. O egoísta recebe mais do que dá. O egoísta, impaciente, irritado, dependente, chorão, reclamão, agitado etc. encanta o generoso. O generoso, por compaixão e por desejo de glória, alimenta e reforça o jeito do egoísta. Depois de anos nessa novela interminável e sem fruto, geralmente por decisão do generoso que sucumbe, a solução é o divórcio. E ele se diz vítima, dá uma de coitadinho e lesado, mas, pensando bem, é tão culpado pelo fracasso no matrimônio como o egoísta. Damos um pelo outro e não pedimos troca.
Imaginemos, nesse contexto, sendo educada uma criança, que precisa decidir depressa sobre como será quando crescer como a mãe ou como o pai. Afora o caso de ser o segundo filho, que ao nascer já vem com o futuro escolhido, considerada a opção do irmão mais velho.
Que saga enfim. Chegado aos trinta eu me pergunto como isso se realizou na minha formação atribulada de sétimo filho. Creio que eu e meus irmãos revezávamos um era generoso e outro egoísta; seguindo este surto cretino de lógica, estou fadado à generosidade. Preciso de uma egoísta.
No entanto, finalmente Flávio Gikovate garante haver uma saída de mestre para essa situação desoladora: reunidos os generosos do mundo, o próprio relacionamento amoroso terá o cenário do grande paraíso prometido, em que ambos dão e recebem de forma equilibrada, por meio de uma troca justa, amando e transando e seguindo a canção. Inocência à parte, a ordem agora não é mais procurar a metade que nos falta. Esse vazio que se sente em si pode bem ser uma mera ilusão o ideal é a aproximação de dois inteiros.
Voltando a mim aqui a tecer, ao chegar em casa e encontrar Zezé, eu viera de ler um poema de três páginas ao meu amigo poeta, Josías Silva de Carvalho, que me desafiara ao considerar insosso um outro poema meu. Esse longo poema que li fora inspirado justamente no café filosófico de Gikovate e se chama A Gênese Particular, a ele dedicado. Josías disse que nunca ouvira nada tão perfeito em poesia. O poema será incluído na minha coletânea poética de 2004: Amor Grátis.
Bem, leitor amigo, agora passa de duas da madrugada, Zezé já está sonhando com as cores dos fogos, assim como Mônica distante, com um novo amor, mas juro para você: com o repeat no som, Oswaldo Montenegro está cantando até agora as mesmas canções: uma generosa e outra egoísta.
Abraços do poeta solto!
16/05/2004
enviada por João Rosa
19/05/2004 13:26
AMOR E SEXO - RITA LEE
Amor é um livro
Sexo é esporte
Sexo é escolha
Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela
Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa
Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é para sempre
Sexo também
Sexo é do bom...
Amor é do bem...
Amor sem sexo,
É amizade
Sexo sem amor,
É vontade
Amor é um
Sexo é dois
Sexo antes,
Amor depois
Sexo vem dos outros,
E vai embora
Amor vem de nós,
E demora
Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval
Amor é isso,
Sexo é aquilo
E coisa e tal...
E tal e coisa...
Composição: Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor
enviada por João Rosa
18/05/2004 14:57
TESTAMENTO
O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros perdi-os...
Tive amores esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
(29-janeiro-1943)
Manuel Bandeira
"Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág. 126.
enviada por João Rosa
13/05/2004 12:17
BELEZA PURA, POR QUÊ?
Outro dia, eu e o meu amigo João Paulo Feliciano Magalhães, músico respeitável e poeta, falávamos sobre o belo. O João Paulo dizia que o belo só existe por conta de uma pré-disposição subjetiva ao encantamento, mas considera que o meio social concorre fortemente para essa propensão.
Essa preocupação com a estética levou-me a consultar a opinião particular do dicionário Houaiss, para quem a beleza, cuja primeira acepção é qualidade, propriedade, caráter ou virtude do que é belo, é sinonímia de boniteza, encanto, especiosidade, formosura, gentileza, graça, graciosidade, lindeza, perfeição, pulcritude. A palavra beleza vem do termo em latim bellitia, que também quer dizer bon-, e surgiu em 1572. O termo belo significa aquilo que tem formas e proporções esteticamente harmônicas, tendendo a um ideal de perfeição; que tem beleza; lindo e seus sinônimos são agradável, sereno, decoroso, honesto, decente; bom; feliz, ditoso; belo também é variante de bon-.
A sinonímia de belo com honesto me fez lembrar uma passagem de Hamlet, Shakespeare, em que o príncipe da Dinamarca pergunta a Ofélia se ela é honesta e bela. Ante a surpresa de Ofélia, ele conclui: se fores honesta e bela, a tua honestidade não deveria permitir nenhuma homenagem à tua beleza. Ofélia indaga: Meu senhor, com quem a beleza poderia manter melhor comércio a não ser com a honestidade?, ao que Hamlet responde: Sim, é verdade. Porque o poder da beleza transformará a honestidade em alcoviteira muito antes que a força da honestidade transforme a beleza à sua imagem. Outrora, isso era um paradoxo, mas agora o tempo mostra que é coisa certa... Essa passagem sugere que, na opinião de Shakespeare, sem a honestidade, a beleza pode se afastar do que chamamos perfeição, e simplesmente deixar de ser.
No entanto, que essa afirmação não permita a conclusão, aliás manjada, de que o que importa mesmo é a beleza interior. Nada mais incoerente, afinal, é sempre bom sabermos as pessoas belas tanto física como intelectualmente, não digo moralmente, pois dependendo da moral que se defende, encontramos algumas incongruências que nos remetem mais ao feio do que ao belo. Sobretudo quando consideramos que a beleza que provoca o amor ou o desejo apenas começa no corpo, e com o passar do tempo há de ser encontrada nas idéias e no comportamento, onde justamente residem a honestidade, a decência, a bondade, a graça etc. Portanto, a idéia conclusiva que se me apresenta é a de que se uma pessoa puder se sentir honesta, muito bom, pois a honestidade é uma forma de beleza; se puder se sentir honesta e bela, sem que a beleza corrompa a honestidade, melhor ainda; e assim sucessivamente em relação aos outros ideais de perfeição.
Quanto à analogia dos termos belo e bom, é importante citar as conclusões de Nietzsche em seu livro A Genealogia da Moral, segundo as quais a moral (cristã?) tem como fundamentos conceitos antagônicos como bom e mau, bem e mal etc. A palavra bom surgiu da palavra branco. O homem branco, isto é, loiro dos olhos claros, seria tido como o homem bom e, conseqüentemente, belo. O que nos leva a pensar que no princípio da moral todos os demais seriam maus ou feios. Contudo, talvez também por considerar essa idéia, do interior da moralidade, estapafúrdia e preconceituosa, o filósofo se confessava o primeiro imoralista da história da humanidade. Além disso, ele parecia até mesmo prenunciar a teoria da relatividade de Einstein, pois, nesse mesmo livro, afirma que se perguntássemos aos escravos quem era o mau, eles apontariam para o seu senhor, e se perguntássemos aos aristocratas quem era o bom, estes apontariam para o mesmo senhor. Ou seja, vistos por representantes de posições sociais opostas, o homem loiro de olhos claros tanto podia ser bom como mau, belo ou feio, dependendo de quem o avaliasse.
Essa visão perspicaz pode bem acolher a idéia do João Paulo sobre a pré-disposição subjetiva ao encantamento, o qual dependerá da posição ou situação social de quem se encanta. Esboçado mais este pensamento, graças aos deuses, de minha parte essa discussão sobre o Belo foi tema de um soneto que escrevi sexta-feira e termina com esta singela crônica e os comentários que venha a suscitar.
Abraços do poeta solto.
João Rosa de Castro
10/05/2004
enviada por João Rosa
12/05/2004 15:23
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira Libertinagem
enviada por João Rosa
10/05/2004 21:07
ODOR DI FEMINA
Senão quando, uma idéia assaltou meu pensamento sorrateira e obstinada por esses dias. Haveria de trazê-la para o texto, caso contrário, ia insistir até que fermentasse na mente e perdesse a forma. Veio sob signos dispersos e genéricos: mulheres, o belo, o feio, o feminismo, o silencio etc. etc.
Sexta-feira, no Programa do Jô, assisti à rápida entrevista com a filósofa Márcia Tiburi, de quem eu fizera uma breve citação na publicação de 21 de abril. Senti uma disparidade entre tudo quanto a "amiga do saber" tem a dizer e o mínimo que o grande José Eugênio permitiu ser dito, dada a restrição cronológica do Programa.
Depois que tivemos o prazer de conhecer o aprofundamento intelectual da Professora Doutora da Unisinos, nos cafés filosóficos da TV Cultura, sentimos estranheza ao vermos seu discurso interrompido e limitado pelo talkshow global; fato que para mim foi mais patente, pois, além do mais, eu vinha de ler um seu artigo muito consistente que estava na Internet, e que hoje não pude mais acessar. Nesse artigo, até onde li, ela tratava da relação entre a estética (e o belo) e a metafísica (e a razão). Embora saiba que o texto requer um conhecimento filosófico especifico, atrevi-me a desbravá-lo, na condição de leigo interessado, e isso serviu para reforçar os signos da idéia obstinada que flutuam na minha mente.
Em outro artigo da filósofa, intitulado As mulheres e a filosofia como ciência do esquecimento ela considera a maiêutica (método socrático que consiste no parto das idéias entre os homens) como fruto de uma inveja curiosa de Sócrates em relação ao parto das mulheres. Diferentemente do conceito que se tem de amor platônico, isto é, de amor isento de desejo carnal, que ocorre sem a aproximação sexual, ela assegura que o amor platônico é o amor homossexual. Entretanto, temos a afeição homossexual como significado de amor socrático, talvez por conta do parto das idéias, praticado entre os homens, em Sócrates. Márcia Tiburi aconselha as mulheres a questionarem o fato de terem sido excluídas do cenário da filosofia. Para ela, o belo só pode ser conceituado a partir de um prisma da Estética, disciplina da filosofia; e para a manutenção da Estética a sensibilidade (apanágio feminino) é imprescindível. O belo seria intocado pela razão, portanto a racionalidade masculina encontraria limites para apreender a beleza do corpo feminino em sua plenitude, donde considerar belo, não o corpo feminino, mas o masculino, fato que culminaria com o narcisismo dos filósofos homens e a conseqüente exclusão das mulheres da filosofia.
Exemplo dessa exclusão é o horror que levou Platão a se insurgir contra Aspásia, mulher de Péricles e professora de retórica; Kant se insurgiu contra a Sra. Dacier, conhecedora de grego. Além disso, Rousseau trata a mulher como uma jóia; para ele a mulher haveria de ser boa e bela, o que Márcia Tiburi considera um exemplo de misoginia. Consequentemente, as mulheres produziram conhecimento com a marca do silêncio.
A modernidade se divide entre os que criticam e os que defendem as mulheres. No século XIX, Nietzsche e os românticos ocupam-se das mulheres de modo ambíguo: para muitos elas têm a natureza indomável e misteriosa. Nesse mesmo tempo, muitas mulheres tornaram-se filósofas; porém a história das mulheres contribui para a escrita da história do silêncio.
Eis que surge Márcia Tiburi, entre outras filósofas, a romper com esse silêncio! Seu discurso é generoso, pois não parece trazer o peso da desforra contra os homens, mas sim a tentativa de diálogo e negociação do espaço das mulheres na construção do pensamento. Quis conhecer mais sobre a evolução do feminismo e li uma resenha de Rafael Evangelista sobre o livro Uma História do Feminismo no Brasil de Celi Regina Jardim Pinto. Esse trabalho de 2003 faz um panorama do movimento feminista, mostrando sua evolução e suas conquistas.
Cumprida a promessa de esboçar os signos da idéia que me tomou durante a semana, sinto-me mais honesto comigo mesmo. Por fim, no que se refere à idealização do segundo sexo, se a mulher puder alcançar o raro equilíbrio entre sentir e pensar, será não apenas bela e inteligente, mas também fecunda e feliz.
Abraços do poeta solto!
03/05/2004
enviada por João Rosa
06/05/2004 13:23
Pedi à minha amiga cibernética e poeta, Gláucia Lisboa, que cedesse um poema seu para publicação no Poesia Ativa e ela concordou. Eis o poema especial da querida poeta:
Amigo,
Não quero que me entendas mal
Nem que se magoe com o que vai ler.
Poucas pessoas eu encontrei como você
E isso é bom:
Torna-o importante.
E é por esta importância
Que quero torná-lo
Uma pessoa melhor.
Você tem o dom de falar,
Mas também tem o dom do silêncio.
Até o mais sábio dos sábios
Faz suas obras ao se calar.
Entretanto, amigo, não quero te controlar,
Muito pelo contrário,
Pessoas como você tem muito a ensinar
E a aconselhar.
Mas agora, sou eu quem te aconselharei:
Ouça o silêncio!
Nele está Deus,
O melhor de todos os conselheiros.
E, assim, entenderás as coisas da vida melhor maneira.
Maneira que as palavras humanas
Não são capazes de explicar.
Gláucia Lisboa
enviada por João Rosa
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